A Cerâmica foi demolida e Imbituba perdeu parte de sua história

A dramática destruição de um patrimônio histórico, que apaga a memória coletiva, e impede que as futuras gerações contemplem o passado de Imbituba.

Por Lucas Francisco Gonçalves e Anny Caroline Siqueira de Carvalho

A história da Indústria Cerâmica Imbituba/SA se confunde com a história de Imbituba. Fundada em 1919 pelo visionário empreendedor carioca Henrique Lage, a ICISA empregou muitos imbitubenses, e chegou a ter mais de 1,3 mil empregados na década de 90. Foi a primeira cerâmica do estado de Santa Catarina, considerada uma das maiores indústrias cerâmicas do sul do Brasil. Nos seus 90 anos de atividade, foi palco de diversas histórias e esteve sempre ao fundo dos principais acontecimentos de Imbituba. Tanto que foi escolhida como um dos símbolos do brasão municipal, criado pela lei 229 de 1970. Teve um trágico fim de funcionamento, através da falência, no ano de 2009 e deixou muitos trabalhadores sem seus direitos garantidos, os quais ainda lutam por eles.

Na tarde de segunda-feira, dia 5, sua saudosa fachada, presente na memória coletiva dos imbitubenses, foi destruída sem nenhuma cerimônia. E com a queda daquelas paredes quase centenárias, um pouco da história e identidade dos imbitubenses também foram ao chão. O povo entristecido observou atônito a morte de uma gigante que praticamente fazia parte da família e pregou seus azulejos nas paredes e nos caminhos da história de cada um. Ainda não se tem uma informação concreta sobre a empresa responsável pela demolição. Mas a pergunta que fica é: por que ninguém se preocupou em preservar um patrimônio da história imbitubense? Nem a tal empresa, nem a prefeitura. E quem se preocupa com a preservação através do tombamento (o ato de reconhecimento do valor histórico de um bem, transformando-o em patrimônio oficial público e instituindo um regime jurídico especial de propriedade), se quer teve a informação, já que a demolição foi feita sem aviso, para evitar qualquer impedimento neste sentido. O certo é que quem está por trás deste mau feito não tem apreço algum pela história de Imbituba, pois colocou abaixo uma memória viva.

A falta de apego com as coisas que compõem a nossa história é algo preocupante, pois desta maneira o povo perde a identidade e a estima. Apagam da memória os traços da nossa história, e contaminam nossas projeções de vida com modelos externos, que não comportam a nossa realidade. Deste modo, o que é de fora é sempre “melhor”, “mais belo”, e “evoluído”. Somos ensinados a aniquilar o que é velho e a idolatrar a modernidade que traz consigo a ruína de uma sociedade que olha através de telas de vidro, mas não para o próprio chão onde pisa. E sem cerimônia, choro, ou vela, uma paisagem histórica foi colocada abaixo. O que acontecerá aos patrimônios que restaram?

 

 

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