Eurico Borba: Os trabalhadores sempre sofrem…

Publicado no Blog Diário do Poder, Brasília, de 05/04/2017.

 

A classe dominante está tramando contra os direitos dos trabalhadores. Não quer ceder em mais nada. Pelo contrário, quer readquirir o que considera que foi dado em demasia. Com a retração do poder de convencimento das igrejas cristãs, fonte maior da consciência ética das sociedades, prospera sem peias a maldita ambição por mais poder e mais riqueza.

O povo está se convencendo de que a quase total amoralidade da classe dominante é a responsável pelo que está acontecendo e que a solução para a crise global passa, necessariamente, pela substituição dessa fonte de poder.

Os direitos dos trabalhadores, por melhores condições de trabalho, há apenas um século começaram a ser reconhecidos e Leis foram votadas para garanti-los contra a ganância exagerada do empresariado. Certamente com o progresso da tecnologia, das novas formas de produção e de organização da sociedade, impõe-se a atualização e o aperfeiçoamento dessas Leis, mas não como artimanha para surripiar direitos duramente reconhecidos e conquistados. Esta ultima iniciativa de aprovar a terceirização generalizada é uma malandragem inaceitável. Por outro lado, a reforma da previdência é uma necessidade a ser atendida logo, por inescapáveis imposições da matemática e do comportamento demográfico, problema agravado pela incompetência dos políticos no passado. Desde 1990 sabia-se que a “bomba previdenciária” estava sendo armada.

Tendo em vista o desemprego de cerca de treze milhões e meio de brasileiros, gostaria de lembrar a proposta que desenvolvo em livro publicado em 2013 pelas Edições Loyola – “Posto de Trabalho: propriedade privada do trabalhador” – titulo que expressa o conteúdo da obra, abordando tema impossível de ser escamoteado. Qualquer empresa tem uma função social e é uma comunidade de trabalho, onde cada pessoa depende das demais para a realização do produto ou do serviço a que se dedicam. Se existe esta conjunção de esforços interdisciplinares cada trabalhador, desde o “dono”, do “acionista majoritário”, ou “preposto especializado”, até o mais simples auxiliar de escritório ou da linha de produção – com funções, responsabilidades e remuneração diferenciadas – são companheiros no trabalho comum e proprietários dos seus postos de trabalho. Isto ocorre pela simples razão de que o trabalho é mais do que uma fonte de renda para possibilitar o digno sustento do trabalhador e da sua família – é a forma mais perfeita da pessoa participar, com o Criador, da construção do Cosmo, expressando sua individualidade impar. Marx, seguindo a trilha aberta pelo cristianismo, afirma ser o trabalho a forma de a pessoa expressar sua personalidade e de participar da construção da história. Este direito da pessoa precisa ser mais percebido e respeitado.

É inaceitável que o governo do país e o poder legislativo permaneçam, por mais tempo, nas mãos de uma maioria de corruptos e incompetentes, insensíveis ao sofrimento de expressiva parcela da população, incapazes de pensarem novas alternativas democráticas para organizar e fazer funcionar a sociedade justa com que sonhamos. Eles precisam ser substituídos, imediatamente, pelo voto democrático e livre da população. Novos poucos partidos e novos rostos dignos para nos representarem são exigências que esses tempos de redefinição politica impõem. Ou se procede desta maneira ou outras ações mais radicais e inesperadas poderão vir a ser tomadas.

O Brasil, como outras nações em momentos de radical decisão histórica sobre seus destinos, precisa construir, de uma vez por todas, o seu momento mais glorioso, quando poderá inverter o sentido da desgraça da sua trajetória e começar, então, a construir seu grandioso sempre esperado futuro. Um povo desesperado, desiludido, constantemente ofendido pelo deboche e pelas mentiras da classe dominante e dos políticos é capaz de se levantar e fazer valer seus direitos exigindo respeito, dignidade e competência dos seus dirigentes.

Eurico de Andrade Neves Borba, 76, aposentado, escritor, ex-professor da PUC RIO, ex-Presidente do IBGE, mora em Ana Rech, Caxias do Sul, RS.

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