Fome de ser – Sagrado Feminino

tailua

Tem hora que a comida não sacia, o café queima a língua e nem toda beleza da vida faz o coração serenar. Uma fome come a gente, e a gente devora o mundo sem mastigar. O problema é que essa fome não é de mundo. Não vem de fora o que está a faltar. Isso é fome de ser.
Ser, aceitando quem realmente somos, é um baita desafio. Tropeçamos nas idealizações e nos esfolamos nos julgamentos. Ocultamos-nos, cobrimo-nos de tarefas inúteis e somos levadas pela inercia do entretenimento. Com a identidade sufocando, enlouquecemos, nos desvalorizamos, ficamos instáveis, tensas, doloridas, doentes. É hora de chamar o resgate, e as plantas podem ser grandes aliadas nessa busca.
Cavoucar a terra, separar sementes, fazer mudas. Plantar, cuidar de um jardim, nem que seja num vasinho. Entregar pro chão a tensão, e receber de volta a energia da constância. Colher um ramo de alecrim e deitá-lo com reverência sobre a água quente. Sentar num canto, sozinha, e tomar esse curioso chá que tem o poder de acalmar o coração enquanto estimula o corpo e a mente.
Sair na rua e sentir o vento soprar, trazer ao nariz um cheiro de flor e rodopiar na cabeça, abrindo as gavetas empoeiradas do inconsciente. Como que sentisse um cheiro que traz lembranças. Aquela sensação quase alucinada de ser transportada para um momento do passado e reviver, por um instante, as emoções e percepções registradas.
Se as gavetas forem do tipo caixa de Pandora e o que sair de lá for assustador, o melhor é aceitar com coragem. Essas são nossas sombras, tudo o que negamos ao longo da vida, na tentativa absurda de sermos perfeitas, ou mesmo aceitáveis, para os outros. Basta bater um bolo e forrar o fundo da forma com folhas de malva-cheirosa. Degustar fatias aromáticas de conforto e bravura dá a força necessária para penetrar na própria escuridão e lá, se encontrar. Depois do encontro é só deixar acontecer, regar as plantas nos dias sem chuva e não se culpar quando alguma morrer seca ou apodrecida.

Comentários