Manifestações em Cannes: Arte e Performatividade Política

lucasoalves

“Em uma sociedade sem cultura, a violência vira espetáculo

No Festival de Cannes deste ano, atores brasileiros do filme Aquarius protestaram contra o golpe parlamentar ocorrido no Brasil, marcado pelo afastamento da Presidente Dilma Rousseff e pela posse do vice Michel Temer, o qual apresenta um plano de governo pernicioso para minorias, para a classe trabalhadora e artística.

Sabe-se que desde a Grécia Antiga, usa-se a arte, em especial a arte teatral, como ferramenta de críticas sociais e políticas. No decurso da história, vários campos das artes insurgiram-se contra panoramas sociopolíticos estabelecidos, fomentando reflexões, modificando posições subjetivas, construindo e desconstruindo opiniões públicas.

No século XX, o cinema teve um papel muito importante na consolidação de ideologias e na consequente aceitação ou oposição de sistemas políticos que vigoravam. No cinema russo, por exemplo, tem-se um cinema voltado para a propaganda comunista, onde não há protagonismo e as conquistas sociais só se dão pela via da mobilização social. Já no cinema norte-americano, desenvolve-se enredos constituídos por protagonismos, onde a individualidade e a meritocracia fazem-se marcantes.

A arte apresenta-se, no palco das realizações humanas, como um dos principais pilares da cultura, distanciando o humano de seu estado animalesco e violento. O teatro, a dança, as artes plásticas, a música, a literatura e o cinema operam ao modo socrático de partejar de ideias, conformando e confrontando a opinião pública. A arte constitui-se então, como um tesouro de siginificantes e significados, auxiliando a humanidade a construir signos sobre a vida pessoal e pública.

No atual panorama político brasileiro, a classe artística, na contramão da grande mídia, especialmente da Rede Globo, denunciou o golpe que estava em curso durante o processo de impeachment da presidenta, irrompendo o pensamento hegemônico e confrontando a opinião pública majoritária.

Dada a consolidação do golpe, seguida pela extinção do Ministério da Cultura, intensificaram-se as performances políticas fora dos palcos. Os atores de Aquarius, no desfile do tapete vermelho em Cannes, levantaram cartazes denunciando o ataque à jovem democracia brasileira. A notícia ganhou notoriedade nos principais jornais do mundo e a performatividade política ganhou espaços e contornos inesperados, contrariando interesses do governo golpista e da grande mídia brasileira.

Artistas profissionais e da vida empoderam-se, ocupam as ruas, ocupam as sedes dos Ministério da Cultura, ocupam o discurso, ocupam o pensamento…Em suma, ocupam a cultura com a arte, a arte que nos faz humanos em todos os sentidos deste significante.

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