Modelo imbitubense tenta virar Plus Size após brigar 14 anos contra a balança

 

“Desde a infância, meu sonho era seguir uma carreira artística. Na escola, fazia teatro e dança. Lembro de perguntar ao meu pai como fazia para entrar na TV. Quando completei 14 anos, uma tia minha descobriu que uma agência de modelos de Tubarão estava fazendo uma seleção de new faces. Passei na primeira seletiva e, de cara, ouvi dos responsáveis que eu precisava emagrecer um pouquinho. Perdi 5 quilos. Eu tinha 1,78 cm de altura e alcancei os 52kg.  No ano seguinte, me mudei para São Paulo e fechei com uma agência da capital. De imediato, minha carreira aconteceu, não paravam de surgir propostas de trabalho”, destaca Bruna Erhardt em entrevista à revista Marie Claire.

Natural de Imbituba, a modelo ressalta que já no início da carreira fez seu primeiro São Paulo Fashion Week, desfilou para Alexandre Herchcovitch, Fause Haten, Colcci na época de Gisele Bundchen. Estrelou vários editoriais, desfilou para Calvin Klein e em Nova York fez sua primeira capa internacional. “Tudo começou a acontecer muito rápido e, como consequência, a pressão sobre o meu corpo aumentou. Conforme aumentava a demanda de trabalho, mais magra me pediam para ficar. Isso foi uma exigência muito presente durante a carreira inteira”.

Bruna comenta que testou todas as dietas possíveis, “líquida, da sopa, da proteína, e cheguei a passar duas semanas comendo uma maçã por dia. Procedimentos estéticos, laxante, inibidor de apetite, termogênico e diuréticos passaram a fazer parte da minha rotina. Em uma tarde na academia, fazia corrida, pilates, muay thai e, fechava, com sauna. Era bem doentio. Nunca fiz cirurgia plástica, mas não vou negar que cogitei lipoaspiração e até serrar o osso para perder medidas. O resultado disso foi uma série de traumas. Eu já não me sentia mais bonita. Encontrava em mim todos os defeitos: perna grossa, braço gordinho”.

Seu peso era entre 57 e 59kg e a indústria pedia que ela chegasse a 50kg, um padrão exigido. “Isso mexeu muito com o meu psicológico. Eu me olhava no espelho e não via um corpo normal, via detalhes fora do padrão, me achava gorda. Descobri recentemente, mais de dez anos depois, que tinha transtorno de autoimagem. Passei a revezar entre episódios de compulsão alimentar e de privação absoluta. Como dividia o apartamento com outras tops super focadas e regradas, acabava comendo escondido. Não era tão difícil pra elas, mas pra mim era insuportável”.

Em um dos episódios mais marcantes, Bruna relata que, “quando todo mundo da agência foi almoçar em uma churrascaria e, embaixo do prato de salada, eu escondi pastel e várias frituras. Antes de alguns jantares, já cheguei a passar no McDonald’s para conseguir comer pouco na frente deles. Eu vivia um verdadeiro efeito sanfona. E toda vez que ficava muito fora do peso, voltava para a casa da minha família para fazer uma dieta mais rigorosa. Minha mãe, coitada, entrava na paranoia junto comigo. Tenho uma origem muito simples, então o dinheiro que eu ganhava ajudava muito. Ela fazia de tudo pra que eu pudesse seguir em frente”.

A modelo passou 14 anos brigando com a balança, mas nunca pensou em desistir. Parou de estudar na adolescência e era a única oportunidade de trabalho que tinha. “Até que no final de 2016, cheguei ao meu limite. Meu corpo e minha mente já não suportavam mais tanta pressão. Fiquei deprimida, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o meu peso. Fui até a minha agência na época e comuniquei que encerraria ali a minha carreira de modelo. Foi muito difícil tomar essa decisão. Meu medo era que me julgassem preguiçosa. Eles, por outro lado, me apoiaram. Eu só estava cansada de lutar contra a minha natureza. Tirei um mês de férias para repensar a minha vida. Porém, como o meu círculo de amigas é formado majoritariamente por modelos muito magras, comecei a achar que existia de fato algo de errado comigo. Não era natural ter aquele corpo curvilíneo, já que todo mundo que me cercava e aparecia nas revistas e na TV tinha uma silhueta escultural, trincada. Criei um trauma com a balança e nunca mais me pesei”, ressalta Bruna.

Nas redes sociais foi onde Bruna conseguiu conhecer várias modelos plus size e descobriu um novo mercado. Foi então que percebeu que era normal e existe beleza em todos os corpos. “Em paralelo, a terapia também me ajudou muito. Melhorei minha autoestima e comecei a enxergar minhas qualidades. Porém, apesar de vestir manequim 44, também não me enquadro nos padrões plus size, que são bastante rigorosos. Se para um mercado, sou magra demais; para outro, estou muito acima do peso. Isso, claro, provoca recaídas emocionais. Tenho dúvidas sobre o meu lugar no universo da moda. Talvez tenha que sair do Brasil para conseguir me encontrar. Lá fora, já existem agências voltadas a modelos intermediárias. Por que aqui não? Somos um país tão rico em diversidade. Essas mulheres ‘fora do padrão’ consomem e, por isso, precisam se sentir representadas”, destaca.

Em um “corpo novo”, Bruna tenta se adaptar a esta nova vida que resolveu seguir, “no último verão usei só maiô. Talvez no próximo, eu já consiga vestir um biquíni. Aos pouquinhos, chego lá. Sigo hoje uma alimentação saudável e equilibrada, sem nenhuma pressão para me tornar magra. Não me arrependo de tudo o que vivi. Mas quando me pedem conselhos a meninas que estão começando, digo com toda a certeza do mundo: entenda os seus limites e tenha amor próprio. Quero usar a minha história para atingir o máximo de pessoas possíveis, ajudar meninas que sofrem com transtorno alimentar e impactar o mundo da moda”.

 

Fonte: Marie Claire

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