Morro do Mirim

tailua

Sobre o morro e a paisagem

Em qualquer lugar da cidade, ergo os olhos e o vejo. Maciço de rocha, terra e mata. Refúgio para a vista cansada do concreto. No fim de tarde, seu verde escurece e o que vejo é um grande contorno recortando as cores do céu. Pela manhã, as nuvens vêm lhe fazer companhia, envoltos em abraço se misturam. Até não sabermos mais onde começa um e termina o outro. Então o sol se ergue, as nuvens se vão e ele fica.

O morro do Mirim é como um oásis no centro de Imbituba, nos lembrando que ainda vivemos numa terra linda. Ainda. Monumento natural, ricamente construído ao longo de algumas centenas de milhares anos. Seu valor não é só ecológico, é também histórico, cultural, afetivo. Ele faz parte da identidade da cidade e de quem vive nela.

Nessa terra de contrastes, a natureza, rica e generosa, parece pouco atraente às vistas do progresso. De costas para a praia, a cidade cresce em prédios cada vez mais altos. No porto, entram e saem caminhões que vomitam milho e soja por onde passam, deixando um rastro de sujeira e fedor como lembrança. O ar puro do oceano bate de frente com a poeira preta do coc. Tem lagoa morrendo no abandono, tem cães morrendo no abandono, tem gente morrendo no abandono.

E de todas as coisas a se fazer por uma cidade com esse tipo de desenvolvimento, de todas elas, parece que a mais importante é construir uma estátua maior que o Cristo Redentor, maior que a Estátua da Liberdade. Um monumento com a imagem de uma santa que já tem um santuário no estado. Em área de preservação(?), no alto do morro que já é sagrado, monumental e icônico, justamente por ser ‘intocado’. Entre aspas porque nele já existem várias obras humanas como as antigas caixas d’água, que poderiam ser mais cuidadas e bem exploradas turisticamente, além das várias grutas que fazem um bonito caminho de peregrinação.

Investir em turismo religioso não é o problema. Se há demanda para esse segmento, pode ser positivo pra cidade. Mas qual a identificação da estátua proposta com a identidade local? Porque interferir na paisagem de forma tão agressiva? Será mesmo coerente empurrar goela abaixo um projeto de 5 milhões em recursos públicos em nome do turismo quando temos praias, dunas, lagos, matas e baleias e não sabemos aproveitar?

 

Comentários