Música e cura – QUEM VIVE SEM MÚSICA?

QUEM VIVE SEM MÚSICA ?

Zeh Rocha
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Começo essa coluna dedicada a uma das mais potentes linguagens artísticas, a Música , especificamente escreverei sobre tema que desde dos anos oitenta, me encanta, a musicoterapia, com duas perguntas: Como seria a nossa existência humana sem a Música ? Será que o som musical, harmônico, uma bela melodia, seja um blues, ou um mantra pode nos curar?
Antes, de respondê-la, ou melhor , tecer algumas reflexões acerca dessa provocante indagação, permitam-me fazer uma retrospectiva histórica, voltando a cidade de Olinda, quando tive contato com a primeira pessoa que ouvi falar dessa atividade terapêutica que vem curando vidas, amenizando o sofrimento de doentes mentais, gente com depressão, baixa estima , autistas , entre outras doenças. Hoje afirmo com serenidade : são males da alma humana.
O musicoterapeuta que conheci se chama Ricardo Oliveira, e era catedrático na Universidade de Brasília, naquela época.
Na Marim dos Caetés, como é chamada a histórica cidade de Olinda, em Pernambuco, o clima pós-ditadura, era de orgia, de libertinagem, da busca de novo sentido para a vida cruel, que durante vinte anos e um pouco mais, amordaçou, feriu, reprimiu toda uma geração de artistas, intelectuais, educadores, pensadores, militantes políticos, estudantes. Eu tinha pedido demissão de uma empresa jornalística, convicto que minha vocação era a música, e tudo mais, em que essa linguagem pudesse me envolver.
Foi dentro desse contexto dionisíaco, que eu comecei a sentir a importância da Música, em minha vida, cortei meu cordão umbilical familiar e fui morar em terras olindenses, comecei a navegar pelos mares nunca dantes navegados das artes. Neste momento, prioritariamente, compor, tocar, improvisar, escrever letras de canções, ensaiar, gravar, fazer shows musicais passou a ser o meu dia-a-dia, meu alimento espiritual, minha missão, convictamente assumida.
Uma oficina de musicoterapia foi para mim primeiro reforço a essa atitude em busca de autonomia, liberdade de expressão. Na verdade, fui vivenciando a dimensão do poder curativo da Música. Nesse momento, eu já acreditava que cantar, tocar, fazer arranjos musicais, gravar em estúdios, não iria me satisfazer totalmente. Ter conhecido a Musicoterapia, sentir que através de exercícios de respiração, de ritmo, de vocalises, brincadeiras de roda, encontramos a força de cura que os sons musicais nos proporcionam, foi como abrir a mente e o coração para uma grande motivação na vida.
A partir daí, busquei conhecer mais a fundo, a Musicoterapia, através de leituras, de novas vivências, e experimentações, que comecei a fazer com meus alunos de canto, com atores, em peças musicais que eu dirigi, entre elas, uma que me foi muito gratificante, que foi “ Os Negros “, do Jean Genet, transformada em uma ópera. Em seguida, vieram outros trabalhos, que me trouxeram grande aprendizado como ser humano e músico.
Tive a oportunidade de desenvolver nossa oficina musicoterápica com deficientes visuais, com quem aprendi muito, sobre acuidade e percepção auditiva, clareza de expressão vocal, sensibilidade musical.
A partir do começo da década de noventa, fortaleci minha experiência utilizando exercícios usados na musicoterapia, com oficinas que passei a chamar de Oficina do Corpo Sonoro. No Recife, vivíamos a efervescência do Manguebeat, movimento musical que elevou a autoestima de todos que faziam parte da cena musical pernambucana. Teve como principal figura, o Chico Science, líder da banda Nação Zumbi, que influenciou diversas bandas musicais da terra do frevo e do maracatu. Então, nesse burburinho , dentro desse caldeirão quente, lá estava eu, levando minha oficina terapêutica, passo a passo, até chegar a São Paulo, onde trabalhei com grupos de teatro.
É possível fazer música sem exatamente se enquadrar nos moldes ditados pela falida indústria fonográfica, no país, sem seguir modismos, nem padrões profissionais exigidos pela mídia televisiva, rádios, etc…? Sim, simplesmente, vivi o que tinha que ser vivido, navegando na contramaré cultural o que foi uma opção consciente para mim.
Aqui estou nessa pacata, amável cidade catarinense, de Imbituba, há três anos, vivendo da música, continuando nosso trabalho da Oficina do Corpo Sonoro, onde agrego toda minha experiência vivida durante trinta anos de estrada musical, de estudos sobre musicoterapia, psicologia transpessoal, ioga, Reiki, Espiritualidade. Agora, ao lado da minha companheira, Adriana dos Santos, recebemos em nosso espaço terapêutico, crianças, jovens, adultos, pessoas , com as quais buscamos desenvolver suas potencialidades artísticas. O nosso projeto Abraçarte se propõe a oferecer oficinas de artes para crianças, aulas de técnica vocal, violão, sessões de dança circular, iniciação de Reiki. A Adriana cuida da parte terapêutica, há anos , vem trabalhando com massoterapia, massagem ayurvédica, apometria quântica.
Preferi nesse primeiro texto para essa coluna que pretende quinzenal, fazer uma breve contextualização cultural, histórica de minhas influências, do meus primeiros contatos com a musicoterapia, para nos próximos textos, ir apresentando ideias, referências, relatos marcantes de minha trajetória no campo musical, onde presenciei, e ainda presencio de mudanças qualitativas na saúde mental, espiritual de pessoas, com quem muito aprendi e aprendo.
Respondendo a pergunta inicial que fiz lá no começo do texto, evidente, que não podemos viver sem música. Existem aqueles que não tiveram oportunidade de nascer num ambiente cultural que valorize a música, outros que sofrem de distúrbios e transtornos mentais, dificuldades de interação social, que são bloqueados em suas sensibilidades, ou não receberam educação musical, nem mesmo se interessaram por isso.
A outra questão, que vamos desenvolver em outros textos nessa coluna, é a Cura através da Música. Existem muitas terapias para sanar nossos males, nos harmonizar, mas, uma delas, a musicoterapia tem se expandido cada vez mais no mundo inteiro, e sobre isso vamos aqui, nesse espaço, refletirmos e apontar caminhos terapêuticos para quem deseja amenizar suas dores, ansiedades, vazios, e quem sabe , até se curar.
Namastê (O Deus em mim saúda o Deus em ti , prece e forma de se saudar as pessoas nos países orientais e ocidentais).

Imbituba, 17 de novembro de 2015.
PROJETO ABRAÇARTE
ESPAÇO TERAPÊUTICO
( Rua Visconde de Barbacena, 319, Centro, Imbituba)

Músico, violonista, cantor, compositor, poeta, professor de artes, de técnica vocal, desenvolve há mais de vinte anos a Oficina do Corpo Sonoro, natural de Recife, Pernambuco, tem três CDs gravados, o Loas, Lendas e Luas, o Caminhantes e o CD Tear, vai lançar em breve,o seu primeiro DVD Transfinito. Mora há três anos em Imbituba. Como autor musical tem canções gravadas por Lenine, Elba Ramalho, Boca Livre, Vicente Barreto, entro outros .

Contatos – 48-96513749 e zeh.rocha@gmail.com

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