Música e Cura – A voz de alguém que canta

Por Zeh Rocha – Jornalista, professor, musicoterapeuta.

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“A voz de alguém que canta / A voz de um certo alguém / que canta como que pra ninguém /A voz de alguém quando vem do coração / de quem mantém toda pureza / da natureza / onde não há pecado nem perdão…” Nada melhor do que refletir sobre os versos dessa linda canção de autoria do Caetano Veloso, um dos  ícones da Música Popular no Brasil, para iniciarmos esse texto.
Ao longo de minha caminhada musical, buscando aprimorar minha voz e outras vozes, através de minha oficina do corpo sonoro, venho colhendo algum aprendizado a partir dessa prática musical. Quero compartilhar com vocês leitores dessa coluna, sobre fatos inesquecíveis, como minha primeira experiência de grupo musical, como superei pouco a pouco as minhas dificuldades, entre elas, a timidez para cantar, e as críticas jocosas dos parceiros musicais. Ter leveza em sua alma, relaxamento corporal, catarse (purificação) e a gratuidade do viver.
Até conseguir domínio técnico e emocional, consegui transmitir com emoção, uma gama de sentimentos, desde raiva, tristeza, dor de cotovelo, agora essa tal de “sofrência”. Quem canta percorre um caminho árduo, que exige paciência, dedicação, humildade para aprender e uma boa orientação por parte de um professor de canto.
Quando alguém canta, mesmo que não tenha nenhum apuro técnico, mobiliza em si, nos outros, energias positivas, sensações de prazer e sublimidade. Com o passar dos tempos, fui descobrindo que o poder de sua voz e do seu cantar, une, eleva o seu espírito e de quem o ouve.
Algo imaterial, transcendente, que não pegava com suas próprias mãos, que lhe escapava ao entendimento racional, que lhe trazia o sentido mágico, ritualístico e espiritual de sua voz cantada. Ainda hoje, podemos sentir todas essas energias. Sim, o som, a música é pura energia que é capturada por nosso cérebro, nossa alma, e nos cura de muitos males. Mas, existem coisas ainda mais intrigantes no cantar.
Que força é essa que emerge do canto, mesmo a mais singela voz de um vaqueiro convocando o seu rebanho de bois? Que energia vem de um voz que une milhares de pessoas em torno de um palco num show musical? O que significa essa magia que encanta a todos que escutam, e se emocionam com uma bela e expressiva voz?
Cada um de nós terá um motivo para se arrepiar de emoção ou, ao contrário, detestar, quando nos surpreendemos ao ouvirmos as vozes de artistas. Fez parte da minha trilha sonora de vida, desde a adolescência, vozes como Janis Joplin, Ella Fritzgerald, Billie Holliday, Elis Regina, Steve Wonder, Fred Mercury, Milton Nascimento, por exemplo. Percebam, que estamos falando do universo da música popular. Em outra coluna, trataremos dos cantores líricos, da ópera.
Aprendi com  o poeta Ferreira Gullar,  nos meus tempos de repórter no Diário de Pernambuco, em Recife, na década de 80, a seguinte lição de Estética: “A verdade é o que emociona”. E eu concordo plenamente. Percebemos hoje, a quantidade de vozes nas estações de rádio, televisão, no cinema, nos sites de música, na internet, uma variedade gigantesca de timbres diferentes, bons cantores, péssimos intérpretes, excelentes vozes, bem trabalhadas tecnicamente.
Lembro do tempo em que iniciei a cantar no grupo Flor de Cactus, várias canções de minha autoria, começaram a ser gravadas por Lenine, Elba Ramalho, por um excelente grupo vocal, o Céu da Boca, depois, o Boca Livre. Nesse tempo, alguns me desestimularam a cantar, por preferirem, evidente, que o Lenine cantasse. Tudo se resolveu, tanto eu, como meu parceiro, continuamos cantando, “eles“, todos meus queridos críticos hoje se calaram, não se dedicam à música.
Existem verdades que emocionam, os gostos musicais são diferenciados. Mas, uma coisa é importante refletirmos: Com o avanço da tecnologia digital de gravação de áudio,  vozes  são  fabricadas, falsificadas. O que o público consome pensando ser verdadeiras, autênticas, é um falso brilhante. Nada como um show ao vivo, para avaliarmos bem, o valor estético de uma voz, sua potência. Um atributo da voz humana é a beleza de seu timbre, de sua expressividade técnica aliada a emoção.

…Continua na edição do dia 23.

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