O Terror da Guerra ao Terror (Parte 2) – Psicanálise, cinema e existência

lucasoalves

Como exposto na primeira parte do texto “o terror da guerra ao terror”, percebe-se que há uma manipulação em torno do significante “terror”, onde a palavra serve para justificar atos desproporcionais em confrontos bélicos de notoriedade pública.
Acerca desta manipulação, ressalta-se que ela se estende facilmente a todos os níveis de relações humanas, visto que somos seres paranoicos por natureza e tendemos a projetar o mal no exterior para aliviar nossos conflitos internos.
De acordo com a psicanalista Melanie Klein, a paranoia desenvolve-se já nos primeiros meses de vida. A autora coloca que todos os sujeitos passam por uma posição esquizo-paranóide no primeiro ano de vida, posição na qual projetamos nossos conflitos internos (nossas dores e angústias) em objetos externos (sobretudo no seio materno, nossa fonte de sobrevivência e prazer) cindindo-o em bom e mau e desenvolvendo ideias paranoicas acerca deste: o seio protege e proporciona prazer, mas também frustra e sufoca. Neste período, ama-se e odeia-se o seio materno.
Este mecanismo projetivo integra o funcionamento psíquico dos sujeitos durante toda a vida, em maior ou menor grau, fazendo dos seres humanos seres inerentemente paranoicos, que desenvolvem suas relações com base no amor e no ódio.
A paranoia a nível cultural, capaz de atingir as massas e moldar a opinião pública, dá-se a partir da construção de signos e do condicionamento, numa rede que envolve o âmago familiar, a escola, a publicidade, a religião e a política. Aprendemos a construir valores e a distinguir o bem do mal com base nestes valores. Muitos dizem, e instituições de respeito o fazem, que esta filosofia maniqueísta é necessária, mas eu pergunto: necessária a quem e para quê? Alemães foram doutrinados a projetar seu ódio em judeus. Norte-americanos e outros países ocidentais por anos doutrinaram sua população a odiar comunistas e morrer desgraçadamente em campos de batalha em nome deste ódio. Agora, os inimigos do “Ocidente civilizado” são terroristas de países mulçumanos.
Como estes inimigos surgem são perguntas que a maior parte da população não faz, pelo simples fato de que é relativamente confortável odiar o “diferente”, pois nos exime de darmos conta daquilo que odiamos em nós e, por conseguinte, da culpa. Por exemplo: para se livrar da culpa de nunca ter abandonado o emprego frustrante e o marido alcoólatra e obtuso, a senhora X odeia seu vizinho mulçumano (e esse exemplo poderia ser aplicado com o vizinho negro, judeu, protestante, chinês, hindu, etc…) e apoia com convicção a invasão do Iraque.
Só quando pararmos de construir gigantes seios maus na cultura e olharmos para nossos abismos existenciais, nossas dores, conflitos e angustias, poderemos enxergar as redes que constroem as guerras e conflitos e, desta feita, encontrar soluções mais rápidas e eficazes para se dirimir o terror que permeia as relações humanas.

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