Psicanálise, cinema e existência – Paris: Encontros e desencontros

Lucas de Oliveira Alves

Agente de Correios

Biólogo

Acadêmico de Psicologia

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Paris: Encontros e Desencontros

 

Quando fui convidado para escrever esta coluna, estava no aeroporto esperando meu vôo para Paris. Foi minha primeira viagem para a Europa, eu estava sozinho e comecei a pensar em algo que fosse ao encontro das temáticas propostas na minha coluna e, ao mesmo tempo, contemplasse a experiência que eu estava prestes a ter. Me veio à mente o filme Lost in Translation (tradução literal: Perdido na Tradução, e lançado no Brasil com o título “Encontros e Desencontros”). Pensei acerca da amplitude deste título. Perder-se na tradução não se trata apenas em ter dificuldades para se comunicar em um idioma estrangeiro, mas perder-se subjetivamente em meio ao desconhecimento de si, do outro, encontrando-se na solidão.

No filme, os protagonistas são dois norte-americanos que por razões distintas estão em Tóquio e passam grande parte dos seus dias sozinhos. Eles se encontram, saem juntos, têm algumas experiências, mas a atmosfera permanece de solidão. Juntos, eles estão sós, mas não mais por uma barreira linguística. Eles não conseguem se comunicar porque estão perdidos internamente, precisando encontrarem-se a si e/ou algo em si.

O longa consegue projetar muito bem a solidão dos personagens, descortinando, frequentemente a skyline de Tóquio, uma metrópole gigante que agiganta a sensação de solidão e de desconhecimento dos personagens e dos telespectadores.

Linkando o filme à minha viagem, suscito que uma das minhas maiores preocupações era a comunicação. Com um francês básico e um inglês intermediário, ficava pensando no que dizer para a imigração no aeroporto e não correr o risco de ser deportado, como me informar sobre qual metrô pegar para chegar no hostel, o que falar no momento do check-in, etc. A despeito das minhas tentativas de me preparar para estes momentos, várias coisas ocorreram diferentemente do que eu esperava – da imigração ao check-in.

Minhas impressões foram se modificando no decorrer das minhas experiências. Me perdi algumas vezes nas infinidades de ruas, boulevares e linhas de metrô de Paris. Fiquei surpreendido com a receptividade de algumas pessoas e a indiferença de outras. Tinha todos os tipos de fantasias possíveis acerca dos franceses, mas elas não foram suficientes para contemplar o valor das experiências vividas.

Em meio a tantas surpresas, situações de deslumbramento e desorientação, eu me surpreendi comigo e me senti perdido; perdido de mim mesmo como os personagens do filme. Em alguns momentos, uma solidão se agigantou em mim. Eu pensava, permeado por fortes emoções, em pessoas que eu gostaria que estivessem ali comigo contemplando todas aquelas maravilhas.

Alhures, percebi que as pequenas coisas foram as que mais me tocaram. Os monumentos, os palácios, os museus e as igrejas, deslumbram, fomentam o êxtase, mas os detalhes tocam a alma e desconcertam. Os cadeados com declarações de amor presos às inúmeras pontes que cortam o rio Sena, uma roda pintada no chão com o dizer: place to kiss no segundo nível da Torre Eiffel, as folhas caindo freneticamente das árvores ao longo do Sena, os patos e marrecos nos lagos artificiais dos jardins e parques. Foram nesses momentos de contemplação de cenas e locais singelos que eu me deparei comigo e com o meu lugar de desejo, chegando a me questionar: do que vele tanta beleza sem amor?

E eis que o fenômeno do amor se insurge ao encontro da temática deste texto: encontros e desencontros. Amar é perder-se e encontrar-se. Perder-se de si e se perguntar qual o seu lugar de desejo ou, qual o propósito da vida e seus recheios: viagens, restaurantes, festas, arte? Do que vale isso tudo em um estado de ignorância e de eterno desconhecimento de si?

Acredito que só o amor nos aproxima do (des) conhecimento e da sublimação existencial. E o amor, surge das intermitências, daquilo que escapa, mas está ali presente, clamando por atenção: a folha caindo na Champs Elyseés, uma rosa solitária em um canto do Jardim das Tulherias. Cenas que podem ser contempladas em qualquer canto do planeta e desconcertar pela simplicidade. A simplicidade que contrasta com as demandas constantes do cotidiano, com o caos de um grande centro urbano, e na qualidade de contrastantes, fazem pensar nas nossas contradições inexpugnáveis e irresolutas, que nos mobilizam em busca de um eu inencontrável.

Perder-se não é algo essencial para encontrar-se, pois não há um eu imutável a ser achado como um tesouro escondido. Perder-se é essencial para perder-se novamente na dialética do eterno retorno. E achar o lugar de desejo neste constante perder-se é fazer as pazes com as contradições e as faltas inerentes à existência; abraçar o destino com amor, ciente de que desencontros são inelutáveis, mas salutares.

Abraçar o destino com amor, mesmo diante da possibilidade da perda e, fazendo um adendo aos acontecimentos trágicos de Paris: a iminência da morte, é a única forma de embelezar a vida sem máscaras, sem ídolos e desprovido de valores imprestáveis. Então, como sugere Cole Porter no título de sua música composta para o musical da Broadway “Paris”: “Let’s Do It, Let’s Fall in Love” (Vamos fazer isso, vamos nos apaixonar).

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