Sagrado Feminino – Vida Nova

Por Tailu Nascimento – Doula e aromaterapeuta

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A vida em sociedade, típica da humanidade, é cercada de rituais que lhe dão sentido e direcionamento. Os rituais são um conjunto de simbolismos num espaço-tempo específicos que, fazendo uso de linguagem e comportamentos, conferem significados estruturantes numa comunidade. Geralmente marcam períodos ou momentos de renovação de ciclo. Nos chamados ritos de passagem, algo ou alguém deixa uma realidade ou um modo de ser para assumir nova identidade.
O fim de ano é cheio de rituais, podemos pensar em três principais: solstício de verão, natal e ano novo, que é a celebração do próprio ano que acaba para a chegada do próximo. Diz-se que o natal surgiu do solstício, não de verão, mas de inverno, pois, logicamente, provém do hemisfério norte. No final de dezembro os povos celebravam a noite mais longa do ano, a partir daí o Sol ficaria cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. Esse era o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. Em algum momento da história alguém achou interessante usar essa data de grandes festas para comemorar o nascimento de Jesus, visto que não existe menção à data desse acontecimento na bíblia. Assim surgiu o natal que até hoje é permeado de simbolismos antigos dos tempos de adoração ao Sol.
De certa forma, podemos ver esses três rituais como um período de transição temporal e celebração da nova vida.  E para transitar para uma vida nova é preciso transmutar, se reinventar, e o que melhor para inventar que a criatividade? Tocar com amor as folhas de uma planta, mudar os móveis de lugar, abrir uma empresa, bordar toalha de mesa ou criar uma revolução. Criar é essencial, mas para criar há de se estar preparado, há de se preparar o terreno mental. Quando cavoucamos os caminhos, a força criativa flui como água, encontra espaços para inundar e, eventualmente, transborda nas estações chuvosas. Essa força criadora não é um movimento solitário, quem quer que se aproxime e venha beber desta fonte, se inspira. Por isso a criatividade é generosa. Ela nos nutre em todos os níveis, revigora e enche a vida de frescor.
No seu fluir sinuoso esse rio pode derrubar árvores e desbarrancar encostas, e não há outra forma de criar novos caminhos. Se represada, essa força d’água pode exercer uma pressão quase insuportável, ou pior, virar lodo, água parada, envenenada. Quando sentimos essa força barrada por obstáculos como negligencia e negatividade, travamos na incapacidade de materializar projetos ou permanecer no propósito. A perda do fluxo criador gera uma crise psicológica e espiritual com resultado certo: uma fome desesperada pelo novo e a incapacidade de percebê-lo nas pequenas coisas da vida. Vagamos sem rumo. Quando o rio está poluído tudo em volta definha, as plantas ficam marrons por falta de oxigênio, as raízes apodrecem, os peixes não saltam, os pássaros não mergulham. Para ver o fluir das águas claras da força criativa preencher nossas vidas, precisamos perceber o que envenena o rio e remover diariamente os obstáculos. Neste fim de ano, que tal deixar morrer o que deve morrer e criar espaço para o novo surgir?

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