Star Wars: uma ópera espacial sobre ética, afetos e política – Psicanálise, cinema e existência

lucasoalves

Lançada em 1977, a saga épica Star Wars (Guerra nas Estrelas) vem conquistando legiões de fãs no decorrer dos anos e dinamizando a cultura popular como poucas histórias conseguiram fazer. Ambientada há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante, Star Wars abarca elementos da cultura samurai, ficção científica, assim como elementos históricos e mitológicos que invariavelmente repetem-se na história mundial.
Temas como ética, política e amor permeiam e saga desde seu primeiro filme lançado – “Uma Nova Esperança”. A luta do bem contra o mal (representado filosoficamente pelo Lado Negro e politicamente pelo Império), a rebeldia que se insurge contra um regime totalitário, os vínculos afetivos criados entre amigos, familiares e entre mestre e aprendiz, fazem parte da rica amálgama que compõe a ópera espacial idealizada por George Lucas.
À revelia da engenhosidade e do design fomentados para se criar um universo totalmente novo, o que é especialmente cativante e um rico pano de fundo para múltiplas análises na saga, são os temas que ressoam na nossa realidade e nos promovem uma identificação. É fácil se identificar com o romance de Han Solo e Princesa Léia. Com o drama de Luke Skywalker, que após perder seus familiares, encontra em Obi- Wan, além de um mestre, uma nova representação paterna. Inegável que também nos identificamos com a revolta de Luke ao descobrir que Darth Vader é seu pai, pois esta descoberta equivale à queda do ideal paterno – nossos pais não são perfeitos e, às vezes, podem aparecer na figura do nosso pior inimigo.
Nos identificamos facilmente, também, com a amizade entre Han Solo e Chewie, a qual lembra muito a amizade entre um humano e seu animal de estimação ou, ainda, com a amizade entre C3PO e R2D2, dois amigos atrapalhados, temperamentais, mas sobretudo leais.
Todos estes personagens e os dramas que são tecidos no entorno de suas relações conturbadas nos provocam emoções, pois nos implicam com afetos presentes em nossas histórias particulares. Histórias que nos fazem nos identificarmos com os heróis e, o que é mais difícil de admitir, com os vilões. Somos Lukes, somos Léias, mas também somos Anakins/Darth Vaders, Chanceler Palpatines/Imperadores, pois em essência, somos todos corruptíveis e podemos nos destruir por amor e pelo desejo de poder (expressão de um amor narcísico).
A ótica fílmica apresentada em Star Wars é muito mais moralista do que ética. Os jedis, imbuídos em uma filosofia estóica (impassibilidade e distanciamento de vínculos afetivos), platônica (distinção metafísica entre o bem e o mal) e samurai (referências óbvias) são a expressão do bem e todos na história que questionam esta representatividade são claramente maus. Quando Palpatine questiona o dogmatismo dos jedis com o intuito de provocar algumas dúvidas em Anakin, ele está apenas suscitando questionamentos éticos básicos: o que é o bem e o que é mal? Quais os limites para o poder?
A questão é que quem assiste aos filmes, os assiste pelo olhar de quem os idealizou. Fomos condicionados a acreditar nos valores jedis e desprezar os sith, mas se observarmos a trama com um olhar nietzschiano, além do bem e do mal, veremos que Palpatine não é puramente a expressão do mal. Obviamente, ele e todos os outros siths são corruptos e não impõem limites à sua busca por poder, no entanto, diferentemente dos jedis, eles questionam a moral e os valores instituídos, colocando-os em cheque e nos fazendo ver a conjuntura histórica-cultural por outras perspectivas.
Se os jedis, por exemplo, tivessem colocado em cheque os valores e as ações da República instituída nos episódios I, II e III, talvez tivessem impedido que Palpatine tomasse conta do Senado e os aniquilasse. Assim, fugindo do enquadramento moral do filme, percebemos que nos identificarmos com Palpatine não é algo inerentemente mal, pelo contrário, este é um meio de questionarmos os valores que incutimos como verdades absolutas e nos enxergarmos como seres egoístas que precisam dosar o bem individual e o bem social.
Além das questões éticas e afetivas que se manifestam em múltiplas facetas na história, Star Wars é também uma história política que não pode ser desprezada. O último filme lançado: O Despertar da Força, faz referências diretas ao nazismo na figura da Primeira Ordem, um regime totalitário que tenta se instaurar após a queda do Império (para a referência ser mais direta ao Terceiro Reich, só se o vilão se chamasse Hitler). Alguns podem dizer que é mais uma ficção se inspirando na realidade, mas será que a questão não é mais complexa do que isso? Não é a própria realidade que se inspira periodicamente na realidade, engendrando o eterno retorno das desgraças humanas/políticas na história?
Os jedis acreditavam que Anakin seria o escolhido que traria o equilíbrio à Força. Erraram! E eu não digo que os jedis erraram porque o garoto se transformou em Darth Vader e instaurou o Império, pois independentemente disso, no episódio VI, ele mata o Imperador e salva seu filho Luke Skywalker, propiciando o ressurgimento da Nova República no cenário político. Contudo, este ato não põe fim ao mal e à impunidade no universo, pois assistimos agora à ascensão da Primeira Ordem.
Qual lado seguir em uma luta política é muito mais uma questão ética do que moral. O erro dos jedis foi apoiar a República manipulada por Palpatine, associando-a ao equilíbrio na Força (ao Bem). Ser contra o regime instaurado, muitas vezes, é o mais ético e justo a se fazer, como nos mostram os episódios IV, V e VI, nos quais vemos os rebeldes lutando contra o Império em nome do retorno da liberdade e da democracia.
Talvez a maior lição política que Star Wars possa nos oferecer, sobretudo na nova triologia que se descortina, é de que a profecia jedi de que alguém irá trazer o equilíbrio para a Força seja uma utopia e de que, seja no universo Star Wars ou na nossa conjuntura social, é mais válido entender a história do que apostar em esperanças messiânicas para se evitar tragédias políticas.
Star Wars é uma aula de política pois repete a realidade que se repete e, consequentemente, nos alerta sobre o futuro. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, socialmente vivemos em um pêndulo entre a liberdade e o conservadorismo. Ao que tudo indica, no Brasil e em algumas nações da Europa, o pêndulo começa a pender para o conservadorismo e ameaçar a democracia, como se observa aqui pelos pedidos de retorno da ditadura e, na Europa, pelo fortalecimento de partidos de ordem fascista. Assistimos a um retorno do recalcado, o retorno do ódio e do conservadorismo, que se repete, invariavelmente, na dialética histórica.
Questões éticas e afetivas perpassam as questões políticas, tornando a arte de viver na pólis um desafio constante e algo que necessariamente precisa ser reinventado. Star Wars nos ensina que não há política sem ética e de que os afetos sempre podem interferir em nossas decisões éticas e políticas, tornando a vida na pólis, seja aqui ou em uma galáxia muito, muito distante, um ato contínuo de reflexão, subversão e reinvenção.

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